Ó Professora, por favor!

 Texto que relata realidade

O dia começou há muito e parece não querer acabar. A alvorada pouco depois das sete, o acordar estremunhado e choroso, a relutância em largar a cama quentinha e o pijama de ursinhos amarelos. A rabugice a vestir, o pequeno-almoço mastigado a custo, o mano crescido a implicar logo pela fresca. A mãe, na pressa atabalhoada dos preparativos do dia, reclama razoabilidade e juízo; o pai procura eternamente as chaves do carro, a mala do portátil e o telemóvel; depois quer saber quem foi que lhe escondeu os óculos – os mesmos que equilibra artisticamente no cabelo revolto.

A primeira paragem é no emprego da mãe, alguns minutos antes das oito; depois sai o irmão, à porta da secundária às oito e vinte. Fica só ela no banco de trás, quentinho e confortável, a dormitar mais um bocadinho e a ouvir em surdina a rádio que o papá escolheu. À porta da escola desliza contrariada para o empedrado do passeio e lança um último olhar amoroso e envergonhado para o elefante de peluche semi-escondido entre os bancos, que ama desmesuradamente e sem o qual não sabe viver.

Logo de manhã há fichas de leitura e exercícios de vocabulário. A professora corrige os trabalhos de casa, faz perguntas sobre o texto, fiscaliza o aprumo da caligrafia, o asseio dos cadernos, a organização da secretária. O intervalo corre num rápido: o lanche é engolido de afogadilho, que cada momento é precioso. Há correrias, risos e zangas, salta-se ao elástico, sonha-se com os baloiços – só há dois, mais um escorrega e uma roda, para cerca de quinhentos meninos: está bem de ver que os mais pequenos nunca têm vez.

Depois há fichas de Estudo do Meio e a seguir aula de Música. Por volta do meio-dia, os meninos seguem em carreirinha ordenada e solene pela rua acima, para almoçar na escola ‘dos grandes’. O refeitório é imenso e ensurdecedor, a balbúrdia das vozes desregradas e das loiças a tinir nos tabuleiros agita e destempera os pequenitos. Regressam à sala de aula frenéticos e transpirados, as faces vermelhas e as roupas sujas.

Já o sol de outono está a poisar de mansinho nas copas das árvores e  agora é a vez do Manel no quadro. A conta arrasta-se ardósia fora, os números tortos e desalinhados como molas soltas. “Muito bem, Manel, vai lá sentar-te. Maria Inês, anda cá tu agora”, diz a professora, enquanto apaga os algarismos para escrever outro exercício. “Então, Maria Inês?”, torna ela, e procura com o olhar a razão da demora. A Maria Inês está debruçada sobre a mesa, a cabeça encostada à mochila aninhada entre os seus braços. “Não vou”, murmura como quem mastiga as palavras. “O que disseste?”, questiona a professora. E ela repete, agora num grito de revolta, com o fervor de quem atira balas: “não vou ao quadro! Não quero ir ao quadro, já disse!”

“Ó Maria Inês, que conversa é essa?” impacienta-se a professora. A criança continua imóvel, deitada sobre os braços. A agitação dos garotos dá agora lugar a um silêncio expectante. Todos os olhos estão postos nas duas protagonistas do episódio. A professora respira fundo, numa tentativa esforçada de camuflar o cansaço com uma serenidade que não sente. Caminha em direcção à mesa da gaiata, disposta a legitimar a sua autoridade com firmeza.

Mas ainda não chegou ao seu destino e já a Maria Inês se ergue e clama, olhos vermelhos e lacrimejantes, a franja empapada de transpiração, a angústia evidente a bailar-lhe na voz pequenina: “ó professora, por favor, não me obrigues a ir ao quadro! Estou tããõoo cansada! Não quero fazer mais nada hoje! Deixa-me lá estar aqui um bocadinho sossegada!”

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