Gonçalo Gonçalves no Com Regras

Libertem as crianças

Eram três da tarde, e ao percorrer a sala com o olhar reparei em uma cabeça inclinada sobre os livros. Aproximei-me e notei que a Francisca dormia profundamente sobre sua mesa. Acordei-a suavemente e perguntei-lhe se estava tudo bem e como tinha dormindo durante a noite. Ela ainda limpava a saliva do canto da boca enquanto olhava para mim com os olhos semicerrados, mas nada respondeu, parecendo perdida no tempo e no espaço.

Estávamos no início do ano letivo, entre a quarta e a sexta semana, em uma turma do 1.º ano, acompanhados por mais vinte e três alunos, dos quais seis tinham apenas cinco anos de idade e quatro eram do 2.º ano.

A fadiga já tinha tomado conta dos alunos na sala de aula e ainda tinham tanto para aprender… Na verdade, as semanas tinham sido muito intensas para quem tinha acabado de sair do ensino pré-escolar e gostava de ter o seu próprio ritmo de trabalho.

Claro que ao longo das semanas a minha querida “sonecas” não foi a única a perder a batalha para o cansaço, outros também tombaram…

Discutir o que está a acontecer no 1.º ciclo tem promovido diálogos divergentes em que muitos interesses externos à escola têm espaço para divagar e manipular a opinião pública. As nossas crianças não precisam de estar tanto tempo na escola, nem os seus pais necessitam de estar tantas horas afastados delas.

No atual contexto social é angustiante ver como a precariedade no trabalho, é combatida com mais horas de trabalho e com salários cada vez mais baixos. É necessário reverter esta situação com a redução dos horários de trabalho e com a atribuição de salários condignos, permitindo assim que as famílias passem mais tempo juntas, promovendo a construção da felicidade.

Como é que as nossas crianças podem estar confinadas à escola por mais de dez horas por dia, longe dos afetos de quem as cuida e educa? Como podem ser privadas do seu espaço para criar as suas regras e as suas histórias?!

A criança precisa de liberdade para brincar, criar, desenvolver um espírito de descoberta e fazer as suas próprias conquistas, sozinha e em grupo. Limitar o seu espaços de ação ao que os outros fazem ou simplesmente ao que lhe é imposto, é condicionar a sua criatividade, a sua espontaneidade e o seu crescimento, sendo assim transformada num produto do ensino mecanizado e formatada para ser um produto final.

Atualmente, a escola portuguesa não consegue ser esse espaço de desenvolvimento criativo, porque não está organizada nem física nem intelectualmente para o ser. Mas, a escola seria a primeira a beneficiar de uma maior “libertação” das crianças, porque certamente teríamos alunos mais disponíveis e interessados em aprender.

Também, é verdade que grande parte dos alunos revelam-se imaturos. Talvez seja devido ao seu contexto familiar, no qual eles estão no centro, muitas vezes sugando toda a atenção de quem está à volta. Desta forma, não criam autonomia e ficam dependentes dos progenitores para todo o tipo de tarefas.

Eles são príncipes e princesas dotados de comportamentos impiedosos, são verdadeiros ditadores, que mandam em tudo e em todos, que não compreendem a influência negativa que exercem sobre os outros e desconhecem os seus limites ou limitações.

A nós – professores, pedagogos e políticos – cabe-nos a tarefa de interpretar a sociedade em que estamos inseridos e transformar a escola para educar melhor. Não podemos ser apenas uns meros funcionários de uma fábrica de alunos.

Se o “lote” sair danificado a culpa também será nossa, porque não fizemos nada para mudar…

Gonçalo Gonçalves

Professor do 1º ciclo

Esta entrada foi publicada em primeirociclo. ligação permanente.

Uma resposta a Gonçalo Gonçalves no Com Regras

  1. coeh diz:

    Os alunos entram todos os dias às nove horas e saem às 17 e 30, como qualquer bom trabalhador. Chegam a casa e ainda têm, pelo menos, mais uma hora de labuta suplementar para o tpc.

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