Sou professora do 1º Ciclo – Ana Rodrigues

Em Novembro de 1988, a primeira escola onde dei aulas, ficava no Concelho da Póvoa de Varzim, a 15 Km do mar; nenhum dos meus 26 alunos do 1º ano tinha ainda visto o mar. Toda a gente tinha gado, mas muito poucos bebiam leite.
Negociei com a colega com quem partilhava a sala que me deixasse os aquecedores acesos; é que quando os meninos me entravam na sala às 8 da manhã, tinha de despir mais de metade deles para lhes enxugar as meias e os fundilhos das calças, cheios de erva e geada do trajecto até à escola.
Se os visse hoje na rua não os reconheceria, mas olhando a foto lembro o nome de todos os 26!
E lembro-me das enfermeiras do Centro de Saúde a entrarem pela sala empunhando adesivos e levantando camisolas, a anunciarem à segunda que levantavam:
– Professora, tem aqui um menino cheio de sarna, o que é que vamos fazer?
E o Bruno com pouquíssimos dentes, por alturas do Natal a tirar do saco um embrulho tilintante e a revelar:
Professora, é um prato para si, escolhi eu, abra que é tão lindo!
E eu a ouvir o prato e a tentar ser convincente:
– Gostava tanto de poder guardar o teu presente para pôr na minha árvore de Natal, pode ser?
E o meu pasmo genuíno quando percebi que quase todos consumiam vinho com relativa frequência.
E o Miguel a responder à minha pergunta:
-Devemos tomar banho todos os dias, não é verdade?
-Eu tomo professora, tomo todos os dias ao Sábado!
O Maximino com umas calças do pai cortadas pelos joelhos (os do pai) e atadas com um cordel na cintura, a comunicar-me que não precisava de aprender as letras porque o pai também não as sabia e era trolha!
A Manelinha que no fim do ano ainda afirmava que o céu era “berde professoura” e a relva “bermelha”, tinha sardas e uns olhos muito abertos; no começo creio que eram abertos com medo, mais tarde era de espanto por já não ter medo.
Entretanto vieram muitos, muitos meninos. Posso dizer com segurança que não esqueci as caras de nenhum e só um ou outro nome me escapa.
Há dias encontrei o Bruno, de uma escola da Amadora, que me viu agarrada a um megafone no meio de uma manifestação e, com voz que já não era a do menino que ensinei a ler me veio dizer:
-Boa Professora, boa!
Um dos que lembro mais vezes é o Paulo, ali pelo Concelho de Tomar, há bem quinze anos; 4º ano de escolaridade, 14 anos, exímio na expressão plástica, das mãos saiam-lhe pequenas obras de arte, fosse a desenhar, a pintar, a modelar; numa frase com quatro palavras dava 5 erros; doce, colaborante, cheio de vontade de aprender. Num dos primeiros dias de aulas perguntou-me bem alto, lá do fundo da sala:
– Professora, posso ir cagar?
Com pouco traquejo e pouca idade, entre o divertida e a necessidade de mostrar alguma autoridade, lá articulei:
-Óh Paulo, então como é que isso se diz?
Ele a encolher-se na cadeira e a corar:
-Óh professora, posso ir cagar se faz favor?
Lá foi! Das vezes seguintes acordei com ele que bastava ver se não estava nenhum colega na casa de banho e nem precisava de pedir, bastava ir.
Desejo de todo o coração que seja um homem feliz e que tenha conseguido organizar a vida de forma a que possa cagar quando bem entender, sem ter que pedir licença a ninguém!
Senhora ministra, senhor Primeiro, senhores secretários de estado, vocês sabem lá o que é ser Professor!

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