Uma brutalidade – Ana Rodrigues Martins

Ora bem, tendo em conta que eu suspeito que muitos professores ainda não se deram conta da coisa, vamos falar de trabalho lectivo ( dar aulas ) e igualdade, partindo sempre da seguinte premissa:
A profissão docente é de um desgaste brutal em todos os ciclos de ensino, nenhum professor deveria ter de dar aulas até aos 66 anos e não há professores em boas condições profissionais, o que há é alguns que dentro das más, estão nas piores.
Vejamos então o seguinte raciocínio e peço que o corrijam se estiver errado:
Os professores do 1° ciclo dão semanalmente 1500 minutos de aulas e os professores do 2°, 3° ciclo e secundário dão 1100 minutos. Reparem que não se trata da diferença entre 22 horas lectivas e 25 horas lectivas como é comum dizer-se. São 400 minutos LECTIVOS a mais por semana o que corresponde a mais 6, 6 horas a dar aulas.
Considerando que um ano lectivo tem, grosso modo, 9 meses de aulas e cada mês tem em média 4 semanas, chegamos ao montante de 36 semanas lectivas. Por uma questão de rigor, descontamos às 36 as semanas de interrupcão lectiva do Natal e da Páscoa, quatro no total, e vamos descontar mais uma para os três dias de Carnaval e um ou outro feriado. Considerem-se assim 31 semanas de aulas efectivas, a 6.6 horas a mais por cada uma, o que nos leva a mais 204,6 horas de trabalho por ano lectivo. Tendo em conta que um dia de trabalho não pode ter mais de seis horas de aulas, 204.6 horas correspondem a um total de 34,1 dias de trabalho a mais em cada ano lectivo, para os professores do 1 ciclo.
Ao fim de 40 anos de serviço, os profs do 1° ciclo terão dado mais 1364 dias de aulas. Se dividirmos esses 1364 dias por 180 que é o número médio de dias de aulas por cada ano lectivo, os profs do primeiro ciclo terão trabalhado mais 7,57 anos que os seus colegas dos outros ciclos.
A menos que esteja a ver isto mesmo mal, parece-me uma brutalidade.

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27 respostas a Uma brutalidade – Ana Rodrigues Martins

  1. Júlia diz:

    Claro que é uma brutalidade! É lamentável que sindicatos e governo não mudem esta situação.

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  2. Bazofias diz:

    Os sindicatos não nos defendem….cada vez estão mais contra o primeiro ciclo. Vale a pena continuar a pagar cotas

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  3. Rosa diz:

    E o pré escolar?? Além das horas letivas, temos um calendário escolar muito diferente dos outros ciclos. Quantas horas/meses/anos a mais trabalha um Educador de Infância?

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  4. coeh diz:

    Amanhã perto do meio dia publicarei um segundo texto de defesa do 1º ciclo e Educadores.
    Água mole em pedra dura…

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  5. Morais diz:

    Será bem vindo, se me permitir irei partilhar. Abraço

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  6. Morais diz:

    Será bem vindo, se me permitir irei partilhar. Abraço.

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  7. Ana Martins diz:

    É claro que é uma brutalidade. Mas não é uma questão tão simples assim. No 2º ccl/3º ccl e Sec um grande n.º de professores nem as 22h de aulas tem, pois há os apoios ao estudo/salas de estudo, tutorias, coadjuvâncias em sala de aula, biblioteca, clubes… que em muitos casos contam como componente letiva pois tem que se completar o horário do docente (do quadro). Nestes casos ainda se leva vidinha satisfatória. Por outro lado, quando é atribuído o cargo de D.T. (que é equiparado a serviço letivo), geralmente não compensa, devido ao trabalho altamente burocrático, às constantes solicitações (cada vez em maior número) dos Enc. de Educação… então se forem alunos complicados… não é por acaso que os professores mais graduados pedem constantemente para não serem diretores de turma. Eu resolveria o problema de uma forma simples. Todos os docentes têm que passar as 40h (35h?) semanais na escola. Depois de cumprida a sua componente letiva, ficariam na escola (com as condições necessárias – gabinetes equipados) a corrigir testes, a preparar as aulas… o que quisessem… mas todos os docentes cumpriam o mesmo horário.

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    • carlos pires diz:

      …Para ser justa esta opinião não precisava colocar-se num “campo de batalha” com os outros professores….bastaria perguntar-lhes se estão ou não de acordo e pedir-lhes o justo apoio…
      Consciência de classe …sabe o que é?

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  8. CONCORDO COM A AUTORA MAS LAMENTO QUE ESCREVA NA ORTOGRAFIA SALAZARISTA DE 1945…

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  9. Paula Oliveira Magalhães diz:

    Paula Oliveira Magalhães diz: Sou professora do 1º ciclo com um grupo de 26 alunos (há colegas com vários anos letivos na turma) e todos os anos sou professora corretora de exames/Provas de Aferição com as respectivas reuniões(pelo menos três),Corrigimos as provas média de 50 /60 sem receber nem mais um cêntimo, no mês de Maio ainda com o período letivo a decorrer . Já fui anos seguidos vigilante de exames do 9º ano e secundário, sou avaliadora interna do Agrupamento, sou diretora de turma(Titular da turma), faço supervisão das AEC,vigilância dos recreios,trabalhamos 5h diárias seguidas sem intervalos(pois temos de fazer a sua vigilância),tenho uma reunião mensal de ano de escolaridade, reuniões de Departamento de todo o 1º ciclo,reuniões com o pré-escolar, reuniões com o departamento de Matemática, de Português, de Ciências com os coordenadores do 2º ciclo(Em Julho e Setembro). O NOSSO TRABALHO É UMA BRUTALIDADE. E querem impor-nos a reforma ao mesmo nº de anos letivos 36 que os restantes docentes. SOU CONTRA!!!!!! Exijo o regresso do regime especial de aposentação para os docentes do Pré-escolar e 1º Ciclo!

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  10. Cidália Luís diz:

    Concordo quando diz que não há professores em boas condições, efectivamente seja em que nível for, estamos todos sobrecarregados e somos todos constantemente desvalorizados.
    Mas, nas suas contas, parece-me que se está a esquecer de algumas coisas!
    Pelo que sei, trabalha o ano inteiro no máximo com 26 alunos, hoje maioritariamente do mesmo nível.
    Quanto aos tais dos 1100 minutos podem, alguns, também não são todos, ter 10 turmas. Vamos imaginar que cada turma tem 26 alunos, nós sabemos que a maioria tem hoje entre 28 e 30, mas vamos fazer de conta que são só 26, esse professor terá 260 alunos.
    Vamos imaginar que esse professor faz 2 testes por período, por exemplo a uma turma de 9 ano, cada turma poderá levar em média a corrigir 5h, dependendo obviamente do tipo de teste e disciplina, por exemplo História, 10 turmas x 5h=50h. Mas como são 2 testes por período serão 100h por período.
    Vamos imaginar que esse professor faz pelo menos 1 ficha de trabalho por período, considerado que estas tem normalmente um grau de dificuldade inferior vamos imaginar que uma turma levará apenas 2h a corrigir, serão então 2hx10= 20h por período para corrigir 1 ficha de trabalho por turma.
    Considerando que são cada vez mais as crianças com NEE, imaginemos que das 10 turmas 5 têm 2 crianças com NEE, infelizmente hoje a maioria tem mais, assim como mais de 50% das turmas também tem crianças com NEE.
    Nestas contas falta ainda dizer que, os tais dos 1100m, por norma leccionam normalmente 2 ou 3 níveis, às vezes mais, às vezes ensino básico e secundário ao mesmo tempo, claro que nesse caso já não terão 10 turmas, mas, mesmo assim poderão ter 6/7 sem grande dificuldade.
    Falta ainda dizer que não contabilizei a construção dos testes, e não, não é apenas a construção de 1 teste, estamos a falar de alunos mais velhos logo, mais capazes de indagar como foi o teste da turma X ou y, logo terão de ser 10 testes diferentes, mesmo que sejam 2 ou 2 níveis. Ah mas não podemos esquecer-nos das tais crianças com NEE, existiam em 5 turmas logo, construir mais 5 testes.
    Poderia ainda falar em trabalhos de pesquisa, questões de aula, entre outras coisas, mas certamente já percebeu que nem é preciso!
    Bem sei que um professor de 1C faz mais fichas aos seus alunos, e também sei que corrige a maioria. Mas também sei que a maioria utiliza as fichas dos manuais, assim como também sei que muitos conseguem corrigir enquanto os alunos fazem exercícios nas aulas, isto porque o 1C se reveste de um carácter muito mais prático que o 2C, que o 3C então nem se fala, especialmente no caso das disciplinas mais teóricas.
    Aqui pelo meio poderia ainda colocar o número de reuniões que cada um pode ter, 10 turmas=10 reuniões, mas se houver avaliação intercalar serão 20 reuniões POR PERÍODO!
    Mas faltam as reuniões de departamento, de grupo, de DT, de coordenação, de de…
    Como pode ver alguns, claro que não são todos, dos tais dos 1100 min. podem não estar assim tão bem como pensava!!!
    Sabe qual é a questão? É típica do português, seja ele que profissional for, olhar apenas para a parte positiva do trabalho dos outros!

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    • Ana Martins diz:

      Se leu com atenção, considero que não há quem nesta profissão esteja bem.
      Não tenho falta de cultura profissional ou espírito de corpo, andei toda a minha vida a lutar por esta profissão. Fiz greves para abolir a prova de
      candidatura quando ainda nem na carreira estava e fiz vigilias em frente ao ministério pela vinculação dos contratados,
      sendo do quadro há anos.
      A única coisa que digo é:
      O 1° ciclo ( e o pré ) dão ao longo da sua carreira muito mais horas de aulas. Isso deve ser tido em conta, pois somos todos professores e a carreira é uma. Ou a hora de aulas passa a ser igual para todos com 50 minutos e os monodocentes passam a ter horários de 22 horas, ou há aqui uma flagrante e mensurável injustiça.
      Já agora, para o ano tb teremos um calendário com mais duas semanas. Porquê? Respondam-me a essa pergunta e estará “explicado” o massacre dos monodocentes.

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      • Quem parece que não leu com atenção foi a Sra.! Ora leia lá novamente a minha primeira frase!!!
        Se lutou pelos direitos da profissão deixe lá que eu também, comecei em 2000 e ainda não deixei de o fazer!
        Não! A sra. não diz apenas que ter uma carga lectiva maior é uma injustiça! Talvez até seja, mas a forma como coloca as coisas dá a sensação que os professores dos outros ciclos não fazem mais nada.
        A Sra. faz uma comparação da carga lectiva dos diferentes ciclos, como se isso fosse o único trabalho desses docentes, esquecendo-se que o trabalho não lectivo de um docente do 2º, 3º C e Secundário ultrapassa largamente as horas lectivas que o 1ºC tem a mais.
        Até posso entender a vossa revolta quanto ao facto de terem perdido o direito à aposentação mais cedo, isso sim eu acho uma injustiça, uma vez que não gozam da redução dos tempos lectivos como os professores dos outros níveis gozam.
        Se falamos de comprar trabalho não podemos comparar apenas aquele que nos interessa mais.

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    • Mércia diz:

      Sim, Cidália, mas não lecionam 260 alunos ao mesmo tempo. Podem aproveitar programações que se repetem em diversas turmas. No 1.º ciclo é preciso uma aula diferente, todos os dias com a duração de 5 horas de 60 min.Quando a turma é mista (o que é muito frequente) é igual a lecionar 2 turmas ao mesmo tempo, várias disciplinas cinco horas diárias. Também realizamos 2 testes por período, no mínimo a 3 disciplinas (português, matemática e estudo do meio). As outras são avaliadas por registos e alguns trabalhos (ed. física, ed. musical, exp. dramática, exp. plástica, oferta complementar, atitudes e valores). Quanto a reuniões ainda não as contabilizei, mas são no mínimo por mês, 1 departamento curricular, 1 de grupo de ano, 6 articulação, com o 2.º ciclo (por período para quem tem 4.º ano). Todas elas a começar às 18h, porque temos vários dias a sair às 17h 30min.Também somos diretores de turma, fazemos reuniões com EE, temos horário de atendimento, mas tudo fora do tempo letivo. Outros cargos tais como coordenador de escola, coordenador de ano, coordenador de departamento, também tudo fora do tempo letivo. Como se vê não temos a vida nada fácil. Conheço vários colegas de 1.º ciclo que já lecionaram o 2.º e dizem que não há comparação possível e todos querem voltar ao 2.º ciclo.Há mais especifidades que não irei falar…

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  11. ana diz:

    A sério colega!!!!!
    Desafio-a (tal como a já outros calhou) a ir trabalhar uns meses no 1º ciclo.
    Espero que não faça o que já outros (de outro ciclo – variantes) fizeram: desistiram ou soçobraram (atestado).

    Eu já trabalhei no 2º ciclo e (sem despreciar o trabalho dos docentes deste ciclo) posso assegurar as diferenças entre ambos os ciclos.

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    • Mas eu não desprestigiei o trabalho dos professores do 1ºC, aliás concordei consigo quanto às condições e à sobrecarga de trabalho.
      Também não lhe disse em lado nenhum que os professores de 1ºC trabalhavam menos que os do 2º, 3º ou Secundário, ou que esse trabalho era menos difícil.
      Limitei-me a mostrar-lhe que só olhou para o que lhe interessava!!!
      Já agora, não rebateu nenhum dos meus argumentos!

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  12. Nuno Chinita diz:

    Isto é típico da classe, quando alguém luta por um direito justo existem outros que de alguma forma menos solidária se opõem com uma força que se torna impossível de entender, aqui o que importa dizer é que para todos os ciclos de ensino importaria melhorar as condições de trabalho. Se por alguma razão retornasse o antigo regime para o 1º ciclo como direito adquirido de se reformarem mais cedo, que foi injustamente retirado com a conivência sindical, isso seria positivo para todos os professores, para mais tarde conseguirem consignar outros direitos claramente necessários para o professorado em geral. Nada adianta estas discussões vazias de conteúdo e inoportunas no momento, vale mais a pena discutir e trabalho realizado pelos sindicatos e de que forma existe representatividade destes para com a classe, isso sim

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    • Quem se opôs? Quem disse que essa luta não era justa?
      A questão é que não devemos lutar utilizando argumentos que não são válidos e muito menos verdadeiros. Até porque, quem não conhecer as duas realidades, vai achar que é verdade. Isso é a lei da selva e do vale tudo!
      Até podia ser feita uma comparação entre as condições de trabalho de uns e outros, porque efectivamente eu considero que os professores do 1ºC são prejudicados em alguns casos. Mas para isso não há necessidade fazer contas, contas que na realidade nem são bem assim, como viu no meu comentário acima. Bastava apenas dizer que a mono-docência impede estes professores de usufruírem de alguns direitos da mesma maneira que os outros, nomeadamente na redução da componente lectiva por idade, nas licenças por amamentação, na vigilância de intervalos, entre outros. Logo, fará sentido que possam reformar-se mais cedo.
      Mas não é deturpando a realidade que levamos a água ao nosso moinho!

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  13. Fátima diz:

    Se pararem com essa troca de galhardetes e começarem todos a remar para o mesmo lado se calhar conseguimos mais coisas… Não se trata de quem tem mais horas letivas ou menos, todos os docentes têm sobrecarga de trabalho com turmas desajustadas, todos têm alunos mais ou menos difíceis, todos têm planificações para fazer e de um modo ou outro todos têm avaliações e reuniões. Todos temos encarregados de educação com mais ou menos preocupações todos contribuem para a formação de cidadãos que se espera sejam no mínimo equilibrados com competências que lhe permitam sair da escolaridade com uma esperança de futuro risonho (Isto apesar das dificuldades que a sociedade e o sistema económico lhes vai impor). A nossa luta deveria ser focada na dignidade da classe que prepara os futuros cidadãos e sem a qual o futuro seria bem mais negro, não em quem faz mais ou menos, porque se formos a ver existe de tudo em todo o lado,.. profissionais com mais sobrecarga e outros que não terão tanta sobrecarga em todos os ciclos de ensino. Todos precisamos de um pouco mais de respeito e dignidade para poder exercer a nossa profissão… Porque todo o trabalho docente é uma forma de arte e deve ser respeitado…
    Beijinhos e bom trabalho

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  14. coeh diz:

    Está tudo muito bem, mas chegou a hora dos professores monodocentes espernearem. Se vão conseguir com isso alguma melhoria laboral o futuro o dirá.

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  15. Armanda diz:

    Tem razão em quase tudo o que afirma. Só gostaria de realçar que enquanto um docente do 1.º ciclo trabalha todo um ano lectivo com uma turma (até 30 alunos?!), há docentes nos outros ciclos com 250 alunos no mesmo ano, em níveis diferentes e a leccionar em escolas de localidades distantes entre si. Eu compreendo a revolta, mas sinto o desgaste de outras formas…😦

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