opinião – Paulo Barriga “Diário do Alentejo”

Naquele tempo é que era. Agora, parece que é tudo empacotado, tipo refrescos Alsa Drink ou pudins Boca Doce. É só juntar água e já está! Naquele tempo é que elas doíam. Tínhamos de cantar a tabuada de trás para diante, de saber as estações de caminhos-de-ferro na ponta da língua e da linha, os reis de antigamente, as serras e os rios da metrópole e as províncias do ultramar como se não houvesse amanhã, as irregularidades dos verbos de forma regular… Naquele tempo, a Quarta Classe fabricava homens e mulheres para a vida ainda que a vida fosse o que era. Obter a Quarta Classe, após rigorosa examinação, com direito a diploma em papel timbrado e assinatura atestada sobre selo fiscal, era sinónimo de conhecimento e de preparação. Agora, parece que é tudo instantâneo. Mas será mesmo? A minha filha Maria esteve entre os 103 mil alunos que esta semana realizaram as provas de exame às unidades curriculares de Português e de Matemática do 4.º ano. Ao contrário dos avós, que poderiam muito bem ser os autores de tudo o que se disse até aqui, fez dois exames e não apenas um. Isto para além das provas de conhecimento que, internamente, ainda terá que prestar a estas mesmas matérias, assim como a Estudo do Meio. É verdade, reconheçamos, que não lhe pedirão no carvão do lápis o nome das estações de comboio, o que não imporia grande dificuldade em função da aniquilação da rede ferroviária, nem a denominação das regiões de além-mar. Mas, quem olhar com atenção e com desprendimento para os atuais programas curriculares do 4.º ano, com facilidade admitirá que as matérias de hoje são aquelas que esgotámos, a custo, no final do 6.º ano e, nalguns casos, até mais adiante. Seria maçador estar aqui a dissecar o extenso e complexo plano de conteúdos adotado para este nível de ensino, mas não deixa de ser imperioso realçar algumas consequências deste elaborado atentado. Para dar vazão à matéria, os alunos entram todos os dias às nove horas e saem às 17 e 30, como qualquer bom trabalhador. Chegam a casa e ainda têm, pelo menos, mais duas horas de labuta suplementar. Fins de semana, nem vê-los. À antiga, Nuno Crato pode julgar que está a produzir os homens e as mulheres do futuro. Competentes, sabedores, empreendedores, prontos a integrar as engrenagens da máquina trituradora. Mas está a esquecer o mais importante: uma criança de 10 anos que não tem tempo para ser precisamente criança, para brincar, para sonhar, será sempre um adulto diminuído. E tão ou mais grave do que roubar a infância a todas estas crianças, o esforço colossal que o ministro lhes exige é perverso. Os pais que não tem condições, por variadas ordens de razão, nomeadamente culturais ou financeiras, para dar acompanhamento aos filhos, podem ter a certeza que a exclusão começa hoje mesmo. Esta escola, ideologicamente alicerçada sobre a ortodoxia da exigência, não é para todos. Tal como não era no tempo em que elas doíam.

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